segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Notícias do Atacama 6 - A Maratona

Acordei pela manhã... Melhor, levantei pela manhã, pois não consegui dormir! Ficava sempre com a prova na cabeça. E com a pergunta, até onde eu vou? Vou terminar? Vai doer o dedo onde? Mas me via correndo naquela areia toda.
Levantei às 6h20min. Fiquei ainda sentado na cama no escuro, esperando o meu companheiro de quarto e corrida acordar. Já havia deixado tudo pronto à noite (de baixo para cima: tênis, chip, vaselina, meia, bermuda térmica, bermuda, iphone carregado, cinto de hidratação, gel de carbohidrato, anti-inflamatório, comprimidos de BCAA, micropore, camiseta, cinta/GPS, lenço, óculos e boné). Pela manhã foi só "vestir" tudo. Antes fui ao café da manhã (bisnaguinha, geleia, mel, café e suco), sem variar muito o que como. A largada estava marcada para às 7h10min. Saímos do hotel às 6h45min, tempo de sobra para cruzar toda a San Pedro de Atacama, e chegar antes das 7 horas na praça central, local da largada.
Na largada, fotos, abraços de boa sorte e muita tensão. Fiquei emocionado por estar alí, onde não deveria estar segundo o médico que me atendeu no dia 4/1. Mas estava pronto para largar para a minha oitava maratona, e desta vez uma pauleira! E com muito pouco treino (nos últimos 25 dias)... Sabia que mesmo com muita sorte (de nada grave acontecer) o normal seria sofrer muito.
Largamos, eu e meu fiel companheiro Teinho. Meu companheiro botou na cabeça que iria comigo até o fim... Acho que no fundo queria muito me ajudar e não ficar sozinho naquela roubada.
Fomos controlando o ritmo no início. Eu morrendo de medo do dedão dar o "ar da graça". Mas fomos bem pelos primeiros quilômetros (1, 2, 3, 4, 5 e 6). Entramos no parque onde fica o Vale da Lua. Naquele momento eu pensei: quem disse que eu não correria no deserto? No km7 o Teinho sentiu a frequência cardíaca subir. Me disse até onde estava o documento do seu seguro de saúde (bolso da mala maior). Acho que estava nervoso também. Eu de ajudado passei a ajudá-lo. Na vida é assim, hora ajuda, hora ajudado. Falei para ele se acalmar (ele melhorou) e continuamos até o km8, onde se dividia o pessoal da maratona do pessoal da prova de 23km. Alí era o último momento de decidir se continuava ou não para a maratona. Brinquei com o Teinho: aqui se separam os homens dos meninos (frase do amigo Nazareno, do Campeche, companheiro de remadas longas em canoas havaianas)! Falei para o Teinho: Vou para a Maratona! E ele: Vou contigo!
Entramos no primeiro canion. Muito bonito! Na saída dele pegamos terreno muito irregular, com muitas pedras soltas. E em seguida uma descida de areia fofa. Desci de lado para proteger o pé machucado. Uma encrenca danada. Alí pensei, se não foi agora o dedo não vai me parar...
Chegamos ao km14 e pensei: 1/3 da prova. Se der problema já dá para chegar caminhando (o tempo limite para fechar a prova era de 7 horas). Seguimos em descida pelos kms 15, 16, 17 e 18. Eu pensava... agora temos que subir tudo de volta, e mais um pouco (já tinha conhecido um pouco do percurso durante a semana). Meu companheiro teve um pouco de dificuldade na subida. Era hora novamente de eu ajudá-lo um pouco! Meia maratona em 2 horas (pensava, se continuar assim, vai dar para terminar bem...). Voltamos, em sentido contrário, para o mesmo local onde nos separamos do pessoal da prova de 23km. Entramos na chamada Quebrada de Cari. Um lugar lindo. Mas ali, pelo km24 comecei a sentir cãimbras. De leve mas as panturrilhas começaram a sinalizar. Duas escalada, uma no km 24 e outra no km 28 acabaram comigo. Parei para ser atendido pelo socorrista. Cãimbras nas 2 panturrilhas. Quando o cara para, parece que tudo fica bem... Quando voltei, do atendimento (alongamento e spray), voltei a sentir. Avisei para o Teinho. Falei para ele seguir que eu iria terminar a prova, mas iria me arrastar um pouco. E ele: vou com você! Nestas horas é bom não estar sozinho, mas sabia que iria atrapalhar a prova dele.
Pois bem, depois de tudo isso a surpresa (não surpresa por que sabíamos do percurso)! Os 800 metros de duna. A surpresa, em subida! Alí além das panturrilhas comecei a sentir cãimbras nos músculos adutores das duas coxas. Um sofrimento só. E depois mais 2km de um cascalho com areia fofa, pior que a subida na duna! Tudo para chegar ao km33 (depois para fechar os últimos 9km em descida). Cheguei ao km33. Com bolhas (já estouradas) no pé esquerdo, o que estava bom. Nesta hora eu nem lembrava do dedo quebrado do pé direito!!! Doia muito o pé. E as panturrilhas. E os adutores! Parei um pouco na tenda de apoio, tomei água, tirei a areia do tênis e da meia. Olhei o pé que estava feio, mas tinha que continuar. Tinha mais 1,5km em subida, para iniciar a descida. Chegou a descida... Pensei, agora vou nem que seja rolando! Mas rolando não daria. Era uma descida com areia fofa (terrível aquela hora). Parei novamente para tirar a areia do tênis. Não consegui colocar o tênis de volta devido as cãimbras. Tive que esperar um pouco para a dor acalmar. Meu companheiro voltou para me socorrer. Calcei o tênis e fui naquele corre, pára com cãimbras, corre novamente! Conseguia correr uns 500, 800 metros e tinha que caminhar uns 200 metros. E fui assim até o final. Nos últimos metros eu pensei: agora não para mais! O Teinho fez a proposta de fecharmos a prova num "sprint". Coitado foi sozinho! Fiquei para trás nos últimos 50 metros, quase caindo por causa das cãimbras. Mas chegou o fim da prova. 5 horas e 14 minutos. Meu pior tempo na minha melhor maratona! E eu feliz da vida...
Muito feliz e emocionado, encontrei os amigos (Teinho, Iva, Mariléia, Beth, Jorge, Mariléia, Augusto e o Super Jairo) e segui para as mesas de hidratação e alimentação. Peguei a minha suada medalha. Doia tudo. Mas a sensação do dever cumprido com muito prazer era muito boa. Essa eu nunca mais vou esquecer. E se o que dizem Loehr e Schwartz sobre a resiliência, que ela pode ser praticada (stress e repouso) for verdade (e eu acredito que seja), saí mais forte dessa. Mas precisava (e ainda preciso) de repouso!
Até a próxima!

Algumas imagens (já que iríamos ter que caminhar durante a prova, levamos as máquinas)...

Largada

Entrada no Vale da Lua

Descida com medo de machucar o dedo quebrado
Teinho e eu

Primeira das muitas ajudas

Trilha...

Atendimento socorrista

Subida em duna

Fim da subida (cascalho e areia fofa)

Vale da Morte

Reta final

Fim de tudo

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